O problema da pobreza

Abraham Kuyper

Abraham Kuyper foi um dos principais nomes do movimento do neocalvinismo holandês, que aconteceu no século 19. Algumas de suas palestras se tornaram livros que estão hoje à nossa dispoisção. Um dos objetivos de Kuyper e do movimento neocalvinista era promover uma interação do cristão com a cultura de forma que repercutisse o entendimento do pensamento bíblico promovido por eles. Uma das principais contribuições de Abraham Kuyper foi o pensamento chamado de Soberania das esferas. Kuyper mostra que todas as esferas da sociedade como educação, política, arte, ciência, família derivam da criação de Deus. Essas esferas possuem soberania dentro de suas próprias instâncias e não podem sobrepor-se, pois isso seria uma má estruturação criacional. Entretanto, todas estão sob a soberania de Deus, pois, como criador do mundo e da humanidade, Deus tem autoridade e direito de soberania para governar tudo o que há. Todas as esferas devem estar estruturadas de forma que honrem a ordem planejada por Deus, ainda que não precisem necessariamente expressar uma simbologia religiosa.

A obra em questão trata de como o cristão deve lidar com um assunto que não pode ser ignorado: o problema da pobreza. Não é preciso ser um expert para saber que não é normal a condição em que algumas pessoas vivem. Há pessoas que passam grandes necessidades. Há pessoas que se aproveitam disso para ficarem ainda mais ricas. Kuyper vem então com uma palestra que foi transformada em livro para responder a essa questão.

Não obstante a palestra de Kuyper constituir 53 páginas do livro, as outras cem páginas estão dividas em um prefácio escrito pelo pastor Guilherme de Carvalho, o qual é responsável pela direção do L’Abri aqui no Brasil; uma introdução escrita pelo pastor Pedro Dulci, da Igreja Presbiteriana Bereia, em Goiânia; e um epílogo escrito por Lucas G. Freire, professor do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica. Guilherme de Carvalho nos presenteia com uma introdução ao pensamento kuyperiano que será trabalhado no livro. Seu prefácio nos prepara para as particularidades do tema e nos mostra um pouco da aplicação do pensamento neocalvinista. Por sua vez, Pedro Dulci nos traz uma excelente introdução que nos conta resumidamente a vida de Kuyper. A partir da introdução descobrimos sua educação nos caminhos do Senhor desde cedo, mas também ficamos sabendo da influência da Teologia Liberal, a qual estava em alta no século 19, que Kuyper recebeu e seguiu por um tempo. Felizmente, Deus providenciou a percepção do erro da Teologia Liberal através principalmente de estudos que Kuyper teve que fazer, a influência de sua noiva e sua igreja. Liberto do erro, Kuyper passa a envolver-se em questões políticas através do Partido Antirrevolucionário e procura trazer uma revitalização da fé através da motivação de como cristãos devem se envolver culturalmente.

Kuyper reconhece em sua palestra a extensão do problema da pobreza e aponta que ele é uma questão que é uma das principais a serem tratadas pelo cristianismo. Ele mostra que é essencial que o cristão se envolva com o pobre e busque ajudá-lo, afinal o Mestre Cristão viveu e teve seu ministério entre os pobres e excluídos socialmente de sua época.

Entretanto, o autor não coloca o pobre numa posição totalmente passiva de vitimização. O pobre também é um pecador que precisa de uma salvação espiritual prioritariamente à econômica-social. O pobre precisa tanto de Cristo quanto o rico para ser salvo. O problema da pobreza é que o pecado amplia as estruturas de desigualdade que são claramente percebidas, deturpando-as em estruturas de opressão. Portanto, o problema não reside em si na existência de classes sociais distintas, mas nas interações pecaminosas que acontecem entre elas.

Dessa forma, Kuyper mostra que o cristianismo é distinto do socialismo como corrente econômica. O autor propõe um socialismo diferente, no qual a humanidade é vista a partir dos olhos do cristinismo e as estruturas da sociedade são respeitadas dentro do modelo criacional divino, onde seus membros respeitam as leis estabelecidas por Deus.

Esse breve livro nos convida a olhar para as estruturas sociais e nos engajar de forma sabiamente cristã para buscar sermos sal. O cristão não pode se insentar do problema da pobreza. Porém, antes de adentrar na escuridão é preciso ser corretamente iluminado com o discernimento correto do âmago do problema em questão, para que não corrompa o cristianismo com gnosticismos de ideologias seculares. É evidente o empenho de Abraham Kuyper em fazer as corretas definições do que é cristianismo e do que são os pensamentos seculares que podem maculá-lo. Tendo sido influenciado e seguidor do liberalismo teológico, uma vez que ele saiu, não quer que mais ninguém seja ludibriado por esses enganos de Satanás.

Matheus Fernandes. Cristão desde os 17, eleito desde a eternidade. Gosto de livros, cinema, conversas legais e conversas bestas. Estudante de Teologia no Sibima e na vida. Tenho dificuldade de escrever biografias sobre mim porque acho que é preciso mais do que palavras para saber quem é uma pessoa.

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